Fatores sociais e estruturais empurram mulheres para cesarianas
Why This Matters
The high rate of cesarean sections in Brazil, exceeding 60%, is a significant public health concern that highlights the need for improved access to prenatal care, pain management options, and informed decision-making processes for expectant mothers. This issue is particularly relevant given the country's ranking among the top three globally for cesarean section rates. Addressing these structural and social factors is crucial for promoting a more respectful and positive childbirth experience.
O que leva tantas gestantes brasileiras a terem seus filhos por cesariana ao invés do parto normal? De acordo com pesquisa divulgada nesta segunda-feira (13) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), não é uma escolha individual isolada, mas uma consequência de fatores psicológicos, sociais e estruturais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que até 15% dos nascimentos ocorram via cesariana, cirurgia que salva vidas em situações de emergência, mas também traz riscos por se tratar de um procedimento extenso e complexo. Mas, no Brasil, a proporção de cesarianas passa de 60%, se aproximando de 90% na rede privada de saúde, de acordo com dados oficiais. Isso coloca o nosso país entre os três com a maiores taxas de cesária do mundo. O estudo partiu de uma pesquisa divulgada em 2014 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), segundo a qual sete em cada dez gestantes do país desejavam ter um parto normal no começo da gravidez. O objetivo foi entender o que acontece durante a gestação ou parto para que boa parte dessas pessoas acabem passando por uma cesárea. Intitulada Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes, a pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo (SP) e Belém (PA), tanto na rede pública quanto na rede privada. Fatores econômicos e psicológicos Na capital paulista, em 2024, 56,19% dos nascimentos foram por cesariana, alcançando 71,05% nos hospitais privados. Já em Belém essa taxa sobe para 69,28% dos nascimentos em geral e chega a 80,41% na rede particular. Ambas as cidades têm leis que dão direito à gestante de pedir pela cirurgia no momento do parto. O Unicef identificou influências positivas e barreiras que favorecem ou impedem a escolha pelo parto normal. "Embora o desejo de protagonismo e de uma experiência positiva esteja presente, outras condições sociais e estruturais também são determinantes na forma como cada gestante vivencia e constrói sua decisão", conclui o estudo. No plano psicológico, pelo lado positivo, as participantes relataram que a recuperação mais rápida favorece a escolha pelo parto normal. Já o medo da dor faz a balança pender para o lado da cesariana. Essas crenças estão relacionadas ao plano social, porque as gestantes são fortemente influenciadas pelas experiências de outras mulheres, principalmente mães, avós e demais familiares. De acordo com a especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil Stephanie Amaral, essas histórias contribuem muito para a construção social do parto normal como uma experiência de grande sofrimento. Mas, na verdade, muitas situações configuram violência obstétrica e não deveriam ter acontecido. "Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia presente, com vários procedimentos e intervenções que não eram necessárias, com indução de parto sem necessidade...Todas essas violências estão muito presentes no imaginário das pessoas e na vivência de outras", ela complementa. Ainda assim, entre as usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), as experiências familiares tendem a valorizar mais o parto normal, por causa das dificuldades vividas após a cirurgia. Mas, de acordo com Stephanie, isso se deve principalmente a uma faceta cruel da desigualdade social. "Essa escolha pelo parto normal está muito relacionada à necessidade de ter uma recuperação rápida, por não ter uma rede de apoio para cuidar do bebê e até de outros filhos e da casa", diz a especialista do Unicef. Já entre as usuárias do serviço privado, a ausência da rede de apoio como desvantagem para a cesária sequer foi mencionada. "No setor privado, as mulheres que escolhem o parto normal fazem isso porque entendem os benefícios para a mãe e para o bebê. Então, elas se preparam e muitas vezes têm condição de contratar uma equipe própria para ter realmente uma experiência positiva de parto", complementa. Outra barreira, verificada exclusivamente entre usuárias do Sistema Único de Saúde, é o desejo de fazer uma laqueadura, o que acaba levando as gestantes a optarem pela cesariana, mesmo reconhecendo os riscos da cirurgia e o desconforto do pós-operatório. De acordo com Stephanie, isso mostra como as mulheres não são orientadas a respeito de outros métodos contraceptivos de longa duração, eficazes e disponíveis no SUS, como o implante subdérmico e o DIU, ou mesmo sobre a possibilidade de fazer a laqueadura após o parto normal ou fora da gestação. Fernanda Lopes de Almeida fez tratamento na Maternidade da UFRJ, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Arquivo/Tomaz Silva/Agência Brasil Preparação para o parto Entre os fatores estruturais, a centralidade das equipes de assistência aparece tanto como facilitador, quanto como barreira. De um lado, a equipe de pré-natal continua tendo maior autoridade, frente à enxurrada de conteúdo das redes sociais, e iniciativas institucionais de incentivo ao parto normal fazem diferença. Por outro lado, as gestantes afirmam receber informações superficiais sobre o trabalho de parto durante o pré-natal e desconhecer a possibilidade de fazer um plano de parto com as suas preferências, principalmente no SUS. A pesquisa também identificou baixa adesão às atividades de orientação ou início tardio do pré-natal, além de acolhimento inadequado das adolescentes. Já as gestantes e puérperas do setor privado demonstraram maior preparo, por iniciativa própria. Algumas, inclusive, relataram ter trocado de profissional diversas vezes diante da recusa em realizar o parto vaginal, ou de abordagens desestimulantes. "No setor público, elas falam assim: 'Ah, não adianta me preparar. Eu não quero ter expectativa sobre o parto porque na verdade quem vai decidir vai ser o médico'. Então, tem esse sentimento de impotência. Para que eu vou criar um monte de expectativa, sendo que, lá, vai acontecer o que a equipe médica quer fazer, dependendo se o médico vai com a minha cara ou não?", relata Stephanie Amaral. Outro ponto de diferença entre as duas redes é o acesso à analgesia, amplamente disponível na rede privada e restrito a poucos hospitais de referência no SUS. "O parto é um momento muito imprevisível. A gente não sabe quanto tempo ele vai durar, qual o nível de dor que essa mulher vai tolerar, se ela vai precisar ou não de analgesia para não entrar em sofrimento. Então, ter analgesia disponível é uma questão de dignidade", defende a especialista do Unicef. Grávidas se exercitam na preparação para o parto - Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil Recomendações A ampliação da oferta de analgesia e de outros métodos não farmacológicos para alívio da dor é uma das principais recomendações do Unicef para gestores públicos e privados, assim como: Qualificar e melhorar o pré-natal com informações claras sobre fases do trabalho de parto, manejo da dor, Plano de Parto, direitos, e planejamento reprodutivo, incluindo orientação sobre laqueadura após parto vaginal e métodos contraceptivos reversíveis de longa duração. Incluir parceiros e acompanhantes no pré-natal e nas orientações sobre trabalho de parto, para que possam apoiar a decisão informada da mulher sem substituí-la ou pressioná-la. Também reconhecer e ampliar a atuação de doulas como apoio físico, emocional e informacional. Mobilizar mães, avós, sogras, parteiras e referências locais como aliadas do cuidado, reconhecendo saberes tradicionais em territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos, entre outros povos e comunidades tradicionais, e fortalecendo conteúdos confiáveis nos espaços digitais onde gestantes buscam informação. Ampliar as políticas públicas para apoiar mães antes, durante e depois do parto, como programas de busca ativa e adesão precoce ao pré-natal; garantia da recepção e registro do Plano de Parto nas maternidades; fortalecimento da vinculação prévia da gestante ao local do parto; qualificação das equipes de saúde para o uso de métodos não farmacológicos para alívio da dor, ampliação de Centros de Parto Normal e Parto Humanizado; e expansão do acesso à analgesia e à laqueadura após parto vaginal. Revisar modelos que favorecem a cesariana sem indicação médica, ao fortalecer a segurança jurídica das equipes para decisões baseadas em evidências; incluir capacitação sobre direitos, desigualdades e cuidado respeitoso na formação de profissionais de saúde; criar modelos de financiamento e remuneração que não incentivem cesarianas sem indicação clínica; e monitorar indicadores de saúde materna e neonatal com transparência. O Unicef também lançou a campanha Parto normal. Uma escolha que merece respeito, que convida gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais de saúde a refletirem sobre como as opiniões podem pressionar as mulheres, a despeito de seus desejos e das melhores recomendações de saúde. "A OMS traz esse conceito de experiência positiva de parto. Então, não é um parto qualquer, só para as crianças nascerem e continuarem saudáveis e vivas. A gente tá falando de uma experiência que realmente deve ser respeitosa, que fique como algo importante para a mulher". "A gente teve pessoas que falaram assim: 'Deus me livre ter outro filho!', porque a experiência foi tão ruim que ela não quer passar por isso de novo. Mas o parto não precisa ser traumático. Ele é uma experiência intensa, mas que pode ser positiva e transformadora", conclui Stephanie.
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